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Tempo

É manhã, o sol bate em minhas pálpebras, mas eu não abro os olhos, permaneço ali, deitado e imóvel. Minha mãe não veio me chamar pra ir à escola, acho estranho, porém ótimo. Talvez a estejam reformando e o diretor só tenha ligado pra avisar hoje cedo. Sem me preocupar, após alguns minutos estou novamente em um sono tranquilo, então começo a sonhar.
Sou um homem jovem, de no máximo 20 anos de idade, cabelos pretos, pele branca e uma barba cerrada que parece não ser feita há dias. Estou numa espécie de colégio, o sinal soa e as pessoas saem às pressas das salas de aula, rostos se tornam borrões ao passar por mim, longe eu avisto uma bela garota. Ela veste calça jeans, camiseta branca e tênis, simples, porém perfeita. O rosto dela se torna visível, consigo ver como seus olhos verdes são lindos, ela então sorri e passa apressada por mim.

Retorno para a sala, que já não é mesma, se parece com uma igreja, têm pessoas nos bancos, novamente com seus rostos retorcidos e irreconhecíveis. Ao meu lado no altar uma moça de vestido branco e véu, mal consigo ver seu rosto, então uma palavra é dita, eu fecho meus olhos e a beijo.
Abro os olhos e vejo minhas mãos sobre meus joelhos, elas estão frágeis, numa coloração estranha, com as veias bem visíveis e azuladas. É noite, e estou sentado num corredor todo branco, pessoas passam a todo o momento carregando macas, eu só as observo. Ouço meu nome ser chamado por uma voz forte, levanto-me, e caminho em direção ao homem parado em pé frente a porta de um dos quartos. Ele veste um elegante jaleco branco, com algo bordado na altura do peito, me forço para ler, vejo um nome precedido de uma palavra, “Doutor”.
Adentro a sala, vejo uma cama e uma mulher nela deitada, imóvel, mas me parece lúcida. O doutor sai e me diz alguma coisa que não identifico com clareza, talvez por conta da idade que avançara. Aproximo-me da cama e a mulher me olha com olhos brilhantes e esverdeados, apesar de idosa, ela passa certa juventude no olhar. A boca dela agora se move, mas não sai som algum, talvez eu ouça apenas um sussurro, então ela segura minha mão, abre um sorriso que irradia seu rosto e permanece assim por muito tempo, sem ao menos piscar. O doutor entra acompanhado de sua equipe, que agora tentam de várias formas ressuscitar o corpo da mulher, sem sucesso.

Eu saio da sala, só consigo me lembrar daqueles olhos esverdeados e aquele sorriso, que só então se tornam familiares. Como pude me esquecer, era a mesma garota da escola, aquele mesmo olhar! Minha cabeça gira, um turbilhão de pensamentos vem à tona, com perguntas sem respostas, seria ela uma amiga, ou até minha mulher? Não sei, só desperto, e me livro disso. Fico surpreso ao ver que não estou em meu quarto, muito menos em minha cama.

Tento me levantar, mas estou fraco e com dezenas de tubos e cabos conectados ao meu peito, desisto de me mover. Após alguns minutos dois rapazes adentram o quarto e sentam-se próximo a minha cama, um deles segura minhas mãos e me olha com tristeza. Ele me faz lembrar do garoto jovem que interpretei naquele sonho esquisito há algumas horas atrás. O outro, aparentemente mais velho permanece longe, com certo desprezo no rosto, ele não me parece familiar, a não ser pela barba mal feita e os cabelos pretos.

Ambos conversam comigo, eu entendo, mas não pronuncio uma só palavra, minha traqueia está obstruída pelos tubos, o que prejudica a fala. Sinto-me mal, fragilizado, os médicos chegam em segundos, me cercam como fizeram com aquela mulher no sonho. Ouço os rapazes aos prantos dizerem uma última frase: “Pai, não se vá agora!”
Me perco em meio a tanta informação, tudo acontece tão rápido em minha mente, mas só consigo pensar em dizer uma coisa: “Vocês ficarão bem, sua mãe está a minha espera.” Forço a movimentar-me, é em vão, as pálpebras pesam, penso em mantê-las fechadas, talvez voltar a dormir, é tarde, já não se movem.

~Eduardo Quintanilha

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