Arquivo da categoria: Contos

Fez-se mar

  A chuva caia fina lá fora. O silêncio era absoluto naquela madrugada.
Os pensamentos vieram como uma enxurrada. Talvez fosse só uma fina corrente de água, mas o silêncio costuma tornar tudo mais intenso. – Ele prega peças na mente.
O dia tinha sido difícil. – O término de uma relação nunca é uma coisa fácil, afinal.
Pensava, se talvez tivesse feito a coisa certa. De qualquer forma, o que poderia ter sido feito? Ele não sabia.
  Ela chegou de repente, sem tempo para conversas. Disse-lhe que a relação já não era mais a mesma. Ele, sem acreditar, ainda tentou convencê-la do contrário. Mas não. Estava decidida. Característica essa que ele admirava nela. – Não naquele momento.
Seu rosto queimava. Suas mãos suavam frio. Eram sinais do seu corpo de que alguma coisa estava machucando-o. – E não estava, realmente? O pior machucado é aquele que remédio algum pode curar. Talvez o tempo cicatrize, mas isso é o máximo que pode acontecer.
  Ela, pelo contrário, estava ciente do que fazia. Resoluta.
Suas palavras saiam feito facas de sua boca. Cortavam o ar e destruíam os tímpanos do rapaz.
Ele, já sem nada por fazer, disse por fim: “Eu não posso te obrigar a ficar comigo. Mesmo que eu queira muito, meu bem. O fato, é que eu te amo, estando ou não contigo. E quero te ver feliz. – Sua respiração estava alta. – Se vais ficar feliz longe de mim, ficarei bem.”
Os olhos dela brilharam. Como quando a primeira lágrima ameaça verter do canto do olho. Mas conteve-se. Estava decidida, afinal.
Ele sorriu, e se foi.
  De fato, pensar sobre aquilo tudo no silêncio da noite era uma coisa difícil. Quase impossível. Mas os pensamentos vêm e também se vão. Feito as ondas de um mar de sentimentos. Você só precisa tomar fôlego entre uma onda e outra, e aguentar firme.
No seu mais profundo íntimo, queria tê-la ali. Seus braços era o lugar onde deveria estar. Mas sabia. Não poderia mais acariciar seus cabelos.
O amor, é um sentimento sólido. Muitas vezes, sacrifícios devem ser feitos. – Pensou consigo.
  Ela estava feliz. Ele, – como dito – ficaria bem. A felicidade dela o confortava. A distância, jamais.
Sorriu para o silêncio do quarto. Como quem debocha de si mesmo. Aquela seria uma longa noite.

                                         
                                                        – E.Q

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Outono

ManhãDeOutono
Outono

O sol aparece calmo, sem euforia. Chega preguiçoso, num nuance avermelhado.
Traz os primeiros raios fraternos, que aquecem os gélidos rostos da estação. Está na sua melhor forma.

Durante todo o dia, trava uma pequena batalha contra o vento frio que vem do oeste. Sempre vence. És a bola flamejante que não se observa a olho nu, oras!

Pessoas se abrigam em seus raios, longe das sombras. Como fazem ao se esconder da chuva.

As folhas começam a cair vagarosamente, e redobram o trabalho das donas de casa varredeiras.
O céu outrora azul, divide seu esplendor com o astro brilhante, que agora se torna rosáceo. Por hoje, é isso. Seu trabalho continua do outro lado do mundo.

No céu, ainda pode se ver as aves que retornam para seus ninhos, tamanha algazarra na volta pra casa.
É tempo de recobrar forças, o outono será longo.

~Eduardo Quintanilha

Xicara-Chocolate-Quente

Dilema

 

 

 

Dormia inquietante, seus olhos não paravam, mesmo de pálpebras cerradas. Sonhava que era um pássaro, vez que era perseguido.
Acordava num relance, olhava o relógio, as horas não corriam. Tentava sem sucesso retornar ao sonho, mal lembrava qual era. Vivia neste dilema, era seu, por direito.
Levantara aturdido, ainda era escuro. Fez um chocolate quente e bebericava sentado á mesa. Sua mãe sempre lhe dissera que um bom chocolate quente trazia de volta o sono.
Atônito, pensava por que era daquele jeito. Não queria viver assim, queria ser normal. Mas o que é ser normal?
Refletia logo após. Trabalhar dia pós dia, descansar uma fração de tempo e mal se recompor? O que o tornaria normal? Era de fato curioso. Ser alto, magro, obeso ou baixo? Negro, pardo, branco ou amarelo? Por que não azul? Todos são de extrema diferença. A anormalidade faz parte do ser.
Refletira um bocado, já em sua cama.
Adormeceu finalmente. O sol já sorria por sobre a copa das árvores. Seu sono era calmo e puro. Seu dilema agora mudara.

 

 

 

~Eduardo Quintanilha

 

Beijo-Na-Testa

Detalhes 

Era uma noite de outono. O vento soprava frio, porém ainda era possível sair de casa sem vestir uma blusa. Estávamos no quarto, quando você comentou algo sobre não estar satisfeita com seu corpo. Chegou a dizer que não se achava bonita, que estava tudo errado. Foi quando eu disse algo que jamais esqueceria: – Você é linda, querida. Pare com esta besteira…
As palavras soaram calorosas, mas não o bastante, como eu quisera que fosse. Poderia ter dito muito mais.
Começaria por dizer o quanto você é linda quando me olha, desse seu jeito, jeito só seu. Ou o quão feliz eu fico, quando me liga dizendo estar com saudades. Mesmo que tenhamos passado a noite juntos.
Diria que te acho linda, quando esconde o rosto com as mãos, por causa do filme de suspense que te fiz assistir comigo. Aquele que jurei que não daria medo.
Lindo é ver você brava, e logo depois abrir um sorriso de lado, resmungando algumas injúrias contra mim. Queria ter dito o quão puro se torna seu rosto, quando adormece recostada sobre o meu peito. E até, o quanto amo esse seu olhar rápido e preciso, que percorrem as prateleiras das livrarias. Encontrando o procurado livro em instantes, ao contrário de mim.
Não conseguiria transformar isso tudo em palavras, não naquela hora. Lembro-me que olhei diretamente em seus olhos cor-de-jabuticaba e continuei: -Você é linda, amor… -arfei- Linda em pequenos e grandiosos aspectos. De um jeito só seu.

 

~Eduardo Quintanilha

Chuva-Asfalto


Imprudência

A chuva caia fina naquela noite. Voltávamos de uma festa. Era tarde da madrugada, quase manhã, não me lembro, estava absorta em pensamentos. A música tocava alto. Esforçava-me para ouvir o que diziam, não compreendia, mas afirmava com um leve movimento de cabeça. Não era importante agora.

Quem dirigia era um rapaz. Loiro, de penteado exótico, suas mãos eram firmes no volante, ao contrário dos olhos. Conversava comigo aos gritos por conta da música. Mantinha o olhar trêmulo na rua, vez ou outra se esgueirava e se via no espelho, como uma garota que acabara de ganhar uma roupa nova. Era de fato curioso. Queria eu ter acabado com essa minha curiosidade…

No banco de trás, um casal dormia. Derramado sobre ela, ele com o cabelo desajeitado, imóvel, ali estava. Ela cheirava a Uísque barato, e debruçava-se sobre a porta lateral do carro. O sono tomava conta deles agora.
Eu observava tudo. O limpador de para-brisa parecia dançar, enquanto apagava delicadamente as marcas que as pequenas gotas de chuva deixavam. Hora me sentia girar com uma enorme sensação de náusea, a bebida fazia seu efeito. Olhando o rosto fino do motorista, tentava garimpar meu subconsciente em busca de algo que me fizesse lembrar quem era o embriagado rapaz que me levava para casa. Não me esforcei por muito tempo, era belo, e apesar de embriagado, me levava para casa, o que mais importava?

Num certo momento, percebi que o carro acelerava mais, e o arranque forte do motor fazia com que a música parecesse um pequeno grilo em meio ao carnaval. O rapaz olhava para mim, sua boca sorria de lábios fechados. Virou-se para o espelho e tornou com seu estranho hábito. Seu terrível hábito!
Tudo ficou lento de repente, aquele meio sorriso não ilustrava mais seu pálido e apavorado rosto. Ouviu-se o silvo da borracha dos pneus em contato com o asfalto molhado, enquanto o carro girava nas quatro rodas. Quando parou, o casal estava acordado no banco traseiro, atordoados com a situação. Todos estavam.
Meu coração parecia seguir a música que ainda explodia atrás de nós, numa batida rápida e sem melodia. O motorista forçava sua cabeça contra o volante e praguejava algo incompreensível. Todos conferiram e constataram estar bem. Minha cabeça ainda rodava quando avistei uma silhueta caída numa calçada a 10 metros do nosso carro. Sai em desespero em sua direção, pensei em tropeçar durante o caminho, mas não o fiz. A tontura havia ido embora. O homem, contou que voltava para casa quando viu somente um par de faróis grandes, avançando a calçada, em sua direção. Vergonha não era a palavra certa naquele momento. Imprudência, talvez…

Quinze minutos depois a ambulância chegou, acompanhada da polícia. Foram feitas perguntas, porém ninguém estava em plenas condições de responder. Entramos na viatura, iríamos à delegacia depor.
Antes de ser imobilizado sobre uma maca e colocado na ambulância, ouvi o homem perguntar ao paramédico se iria voltar a andar um dia. Preocupado, perguntou também se poderia ligar para sua mulher, queria avisá-la que chegaria atrasado.

:: Este conto foi baseado em um trecho da música “Por Deus, Por favor” do cantor Emicida.

~Eduardo Quintanilha

Se-Foram-Borboleta

E se foram..

 

As coisas mudaram…
Não de repente, mas aos poucos. De modo que só então eu percebera.
Começara quando num dia, não pedi que me buscassem na escola, num típico dia de chuva.
Quando, estudar deixava de ser um castigo.
Mudaram, quando nem notei a ausência daquele velho rechonchudo vestido de vermelho, no Natal.
Sentia-me estranho.

Meus aniversários já não eram mais comemorados com balões e bolos estampados.
Era tudo novo.

Coisas que nunca havia pensado, começaram a fazer sentido. E as que já havia, se tornaram estúpidas.
Os colegas de repente se afastaram, os amigos permaneceram.
Entendi então, o significado e a diferença de coisas que pra mim eram incompreensíveis. Aprendi da pior maneira que a vida é curta, e que todos seguem o mesmo destino.
Lições valiosas.

As borboletas que coloriam o quintal de minha avó, agora são raramente vistas. Foram-se com ela? Talvez.
Até mesmo os pássaros sumiram. Não esses de penachos acinzentados e soar choroso, mas os coloridos, que bebiam toda tarde aquela melada mistura em meu quintal.

E se foram emoções, e se foram alegrias. Aquelas verdadeiras, simples como o desenho humanoide de crânio ovulado que nunca mais conseguir fazer no papel.

Talvez tenham ido por eu ter crescido, também pela perca de inocência. Ou simplesmente, por que eram para ir.

~Eduardo Quintanilha

Imagem da Internet

Sobre Sonhar 

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