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Terça Nublada

Terça Nublada

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Estava tomando meu café da manhã quando ela entrou. É o local onde frequento diariamente, gosto daqui, é perto de onde trabalho, e o primeiro café expresso é cortesia da casa.
Ela abaixava o volume do iPod, enquanto era atendida no balcão. Nunca havia visto aqueles cabelos pretos por aqui. Talvez por isso gostasse tanto deste lugar, sempre me surpreendia.
Ouvi ela pedir chá, pão, e torradas. O atendente lhe ofereceu uma caneca com café expresso, ela recusou, disse lhe que não gostava, e agradeceu com delicadeza.
Não consegui desviar o olhar daquela moça. Pude notar detalhes e traços de seu rosto, inesquecíveis traços.
Ela então terminou seu chá, e saiu, parecia atrasada. Também me levantei após alguns minutos. Fiquei pensando naqueles olhos castanhos no caminho para o trabalho. Era inútil tentar tirar ela da minha cabeça, estava apaixonado. Como poderia? Ela mal gostava de café! Enfim aceitei, e torci para reencontrá-la no dia seguinte. Afinal, nunca se sabe o que esperar de uma terça-feira nublada.

— Eduardo Quintanilha

Escolhas

Escolhas

 

Vez ou outra me vêm à cabeça a ideia do quão vasto é o mundo em que vivemos. A ideia do que uma simples escolha poderia causar, ou deixaria. Já notaram isso?
Quantas vezes me peguei pensando, como seria minha vida, se não tivesse tomado certas decisões. O pequeno ato de dizer ou não aquilo, de escolher não ir a tal encontro, por que aquele dia não me sentira bem.
Longe desse papo de destino e paranormalidades, vivenciamos isto o tempo todo, é real, está lá.
As escolhas parecem tomar vida própria no momento da decisão em si. No entanto não nos damos conta, talvez depois, às vezes nunca.
Certa vez ouvi uma citação, foi de alguém, numa música, um autor, não me lembro. Mas dizia o seguinte: “As escolhas nos levam a lugares diferentes dos caminhos que imaginamos traçar”. Parece ser bem clichê dizer que as coisas não acontecem por acaso, mesmo que você tente força-lá. Mas certamente é algo a refletir.

 

~Eduardo Quintanilha

Sobre viajar

Na estrada, a caminho de Foz do Iguaçu

Na estrada, a caminho de Foz do Iguaçu


Sobre viajar

Viajar não é simplesmente levantar cedo e pegar a estrada. Viajar é renovar-se. É deixar tudo para trás, levar consigo só o necessário. Uma trouxa de roupas, alguns trocados e a vontade de conhecer coisas novas.
Viajar é um aprendizado, desses que não se ensinam na escola. Aprender sobre pessoas, gostos e costumes. Quem sabe até, outra língua.
Viajar é esquecer quem você é, e se redescobrir.

 

~Eduardo Quintanilha

Namore uma garota que lê – Rosemary Urquico

Garota-Lendo


Namore uma garota que lê

Namore uma garota que gasta seu dinheiro em livros, em vez de roupas. Ela também tem problemas com o espaço do armário, mas é só porque tem livros demais. Namore uma garota que tem uma lista de livros que quer ler e que possui seu cartão de biblioteca desde os doze anos.
Encontre uma garota que lê. Você sabe que ela lê porque ela sempre vai ter um livro não lido na bolsa. Ela é aquela que olha amorosamente para as prateleiras da livraria, a única que surta (ainda que em silêncio) quando encontra o livro que quer. Você está vendo uma garota estranha cheirar as páginas de um livro antigo em um sebo? Essa é a leitora. Nunca resiste a cheirar as páginas, especialmente quando ficaram amarelas.

Ela é a garota que lê enquanto espera em um Café na rua. Se você espiar sua xícara, verá que a espuma do leite ainda flutua por sobre a bebida, porque ela está absorta. Perdida em um mundo criado pelo autor. Sente-se. Se quiser ela pode vê-lo de relance, porque a maior parte das garotas que leem não gostam de ser interrompidas. Pergunte se ela está gostando do livro.

Compre para ela outra xícara de café.
Diga o que realmente pensa sobre o Murakami. Descubra se ela foi além do primeiro capítulo da Irmandade. Entenda que, se ela diz que compreendeu o Ulisses de James Joyce, é só para parecer inteligente. Pergunte se ela gosta ou gostaria de ser a Alice.
É fácil namorar uma garota que lê. Ofereça livros no aniversário dela, no Natal e em comemorações de namoro. Ofereça o dom das palavras na poesia, na música. Ofereça Neruda, Sexton Pound, cummings. Deixe que ela saiba que você entende que as palavras são amor. Entenda que ela sabe a diferença entre os livros e a realidade mas, juro por Deus, ela vai tentar fazer com que a vida se pareça um pouco como seu livro favorito. E se ela conseguir não será por sua causa.

É que ela tem que arriscar, de alguma forma.
Minta. Se ela compreender sintaxe, vai perceber a sua necessidade de mentir. Por trás das palavras existem outras coisas: motivação, valor, nuance, diálogo. E isto nunca será o fim do mundo.

Trate de desiludi-la. Porque uma garota que lê sabe que o fracasso leva sempre ao clímax. Essas  garotas sabem que todas as coisas chegam ao fim.  E que sempre se pode escrever uma continuação. E que você pode começar outra vez e de novo, e continuar a ser o herói. E que na vida é preciso haver um vilão ou dois.

Por que ter medo de tudo o que você não é? As garotas que leem sabem que as pessoas, tal como as personagens, evoluem. Exceto as da série Crepúsculo.

Se você encontrar uma garota que leia, é melhor mantê-la por perto. Quando encontrá-la acordada às duas da manhã, chorando e apertando um livro contra o peito, prepare uma xícara de chá e abrace-a. Você pode perdê-la por um par de horas, mas ela sempre vai voltar para você. E falará como se as personagens do livro fossem reais – até  porque, durante algum tempo, são mesmo.
Você tem de se declarar a ela em um balão de ar quente. Ou durante um show de rock. Ou, casualmente, na próxima vez que ela estiver doente. Ou pelo Skype.
Você vai sorrir tanto que acabará por se perguntar por que é que o seu coração ainda não explodiu e espalhou sangue por todo o peito. Vocês escreverão a história das suas vidas, terão crianças com nomes estranhos e gostos mais estranhos ainda. Ela vai apresentar os seus filhos ao Gato do Chapéu [Cat in the Hat] e a Aslam, talvez no mesmo dia. Vão atravessar juntos os invernos de suas velhices, e ela recitará Keats, num sussurro, enquanto você sacode a neve das botas.

Namore uma garota que lê porque você merece. Merece uma garota que  pode te dar a vida mais colorida que você puder imaginar. Se você só puder oferecer-lhe  monotonia, horas requentadas e propostas meia-boca, então estará melhor sozinho. Mas se quiser o mundo, e outros mundos além, namore uma garota que lê.

Ou, melhor ainda, namore uma garota que escreve.

 

Texto original: Date a girl who reads – Rosemary Urquico (Texto em Inglês) 

Tradução e adaptação – Gabriela Ventura (Quinas e Cantos)

O texto em si foi me apresentado pela Jéssica Florêncio, nos comentários de um dos posts do seu blog. O texto postado por ela é uma adaptação, para “Namore um cara que lê”, também muito interessante por sinal. Caso queiram ver, deem uma passada no blog dela! JessicaFlorencio.wordpress.com

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