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Angústia

Bem vindo ao lugar
Onde o tempo não passa.
Quanto mais a chuva cai,
Mais a mente se embaça.
Sozinho
Você não pode gritar.
É, eu sei,
É complicado lidar.
Aqui não existem sorrisos ou
lágrimas.
Pesadelos
Estão vivos.
Tomam forma
Como um boneco de barro
Fujo
Travo
Corro
Me amarro?
O ápice da angústia tomando forma Numa madrugada chuvosa.

                                                 ~ E.Q.

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Chuva-Asfalto


Imprudência

A chuva caia fina naquela noite. Voltávamos de uma festa. Era tarde da madrugada, quase manhã, não me lembro, estava absorta em pensamentos. A música tocava alto. Esforçava-me para ouvir o que diziam, não compreendia, mas afirmava com um leve movimento de cabeça. Não era importante agora.

Quem dirigia era um rapaz. Loiro, de penteado exótico, suas mãos eram firmes no volante, ao contrário dos olhos. Conversava comigo aos gritos por conta da música. Mantinha o olhar trêmulo na rua, vez ou outra se esgueirava e se via no espelho, como uma garota que acabara de ganhar uma roupa nova. Era de fato curioso. Queria eu ter acabado com essa minha curiosidade…

No banco de trás, um casal dormia. Derramado sobre ela, ele com o cabelo desajeitado, imóvel, ali estava. Ela cheirava a Uísque barato, e debruçava-se sobre a porta lateral do carro. O sono tomava conta deles agora.
Eu observava tudo. O limpador de para-brisa parecia dançar, enquanto apagava delicadamente as marcas que as pequenas gotas de chuva deixavam. Hora me sentia girar com uma enorme sensação de náusea, a bebida fazia seu efeito. Olhando o rosto fino do motorista, tentava garimpar meu subconsciente em busca de algo que me fizesse lembrar quem era o embriagado rapaz que me levava para casa. Não me esforcei por muito tempo, era belo, e apesar de embriagado, me levava para casa, o que mais importava?

Num certo momento, percebi que o carro acelerava mais, e o arranque forte do motor fazia com que a música parecesse um pequeno grilo em meio ao carnaval. O rapaz olhava para mim, sua boca sorria de lábios fechados. Virou-se para o espelho e tornou com seu estranho hábito. Seu terrível hábito!
Tudo ficou lento de repente, aquele meio sorriso não ilustrava mais seu pálido e apavorado rosto. Ouviu-se o silvo da borracha dos pneus em contato com o asfalto molhado, enquanto o carro girava nas quatro rodas. Quando parou, o casal estava acordado no banco traseiro, atordoados com a situação. Todos estavam.
Meu coração parecia seguir a música que ainda explodia atrás de nós, numa batida rápida e sem melodia. O motorista forçava sua cabeça contra o volante e praguejava algo incompreensível. Todos conferiram e constataram estar bem. Minha cabeça ainda rodava quando avistei uma silhueta caída numa calçada a 10 metros do nosso carro. Sai em desespero em sua direção, pensei em tropeçar durante o caminho, mas não o fiz. A tontura havia ido embora. O homem, contou que voltava para casa quando viu somente um par de faróis grandes, avançando a calçada, em sua direção. Vergonha não era a palavra certa naquele momento. Imprudência, talvez…

Quinze minutos depois a ambulância chegou, acompanhada da polícia. Foram feitas perguntas, porém ninguém estava em plenas condições de responder. Entramos na viatura, iríamos à delegacia depor.
Antes de ser imobilizado sobre uma maca e colocado na ambulância, ouvi o homem perguntar ao paramédico se iria voltar a andar um dia. Preocupado, perguntou também se poderia ligar para sua mulher, queria avisá-la que chegaria atrasado.

:: Este conto foi baseado em um trecho da música “Por Deus, Por favor” do cantor Emicida.

~Eduardo Quintanilha